terça-feira, 7 de outubro de 2014

Pesquisa revela os danos do fogo e exploração madeireira sobre a Amazônia

As perdas de carbono na floresta amazônica pela degradação florestal representam até 40% das perdas pelo desmatamento. É o que revela artigo publicado por cientistas brasileiros e britânicos na revista Global Change Biology. O estudo, que coletou amostras de plantas e solos em 225 pontos da região e é o maior já realizado para as florestas tropicais degradadas, aponta a perda de carbono em florestas que passam por perturbações, como extração madeireira e fogo acidental.

A Amazônia tem um papel de destaque na contenção do processo de aquecimento global. Ela estoca cerca de 90 bilhões de toneladas de carbono, o que corresponde a 35% do carbono presente nas florestas tropicais no mundo. No entanto, os pesquisadores mostram que, além da perda de carbono através do desmatamento, a floresta também perde muito carbono quando é degradada. A exploração madeireira e os incêndios acidentais na região causam a perda de cerca de 54 milhões de toneladas de carbono, que representam 40% da perda anual pelo desmatamento da floresta, o que não vem sendo contabilizado nos números oficiais. Para se ter uma ideia melhor dessa quantidade, a perda equivale a mais de 40 milhões de carros circulando durante um ano.

Estudo
A pesquisa iniciou em 2009 com pesquisadores da Embrapa, Museu Paraense Emilio Goeldi e Universidade de Lancaster (Reino Unido), no âmbito da Rede Amazônia Sutentável (ver box). Ao longo desses anos foram levantados dados de campo em duas regiões da Amazônia Oriental: nos municipios paraenses de Belterra e Santarém, oeste, e Paragominas, nordeste do Pará.

Nesses locais foram estudadas 87 mil amostras de plantas e 5 mil de solo. A referência para a coleta de amostras tem como base as diretrizes para inventários nacionais de gases de efeito estufa, estabelecidas no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que recomenda que as avaliações em áreas florestais devem quantificar cinco reservatórios de carbono. Deles, quatro reservatórios foram avaliados pelos pesquisadores: carbono acima do solo (árvores vivas, palmeiras e cipós), madeira morta (resíduos lenhosos e árvores mortas em pé), serrapilheira (folhas caídas no chão da mata), e solo.

A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, explica que a análise dos dados de campo foi combinada com a análise de imagens de satélite desde a década de 80, quando o Brasil começou a monitorar anualmente o desmatamento da Amazônia por meio do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. "Esse é um dos grandes diferenciais do trabalho, pois realizou-se uma pesquisa detalhada em áreas de florestas degradadas, que normalmente são difíceis de visualizar nas imagens de satélite. Até então as pesquisas com emissões de carbono referiam-se ao desmatamento da floresta, ou então a estudos focados em distúrbios isolados. Este é o primeiro estudo que contempla áreas degradadas e diferentes tipos de distúrbio com um todo", explica.

A quantidade estocada de carbono foi avaliada em diferentes tipos de florestas: intacta ou primária; com exploração seletiva de madeira; e explorada e queimada. Para chegar a essa quantidade, a conta é simples: 50% de uma árvore - a parte aérea (folhas) e madeira - é carbono, medida que vale para plantas em geral. Os resultados do estudo nos diferentes tipos de floresta mostram que as perdas de carbono vão de 18% a 57% quando se compara as áreas degradadas às áreas intactas.

A combinação dos danos causados pela extração de madeira e incêndios acidentais pode então transformar as florestas em um mato denso, cheio de árvores e cipós de pequeno porte, resultando em armazenamento 40% menor nos estoques de carbono nas matas degradadas. E o corte seletivo de madeira está desempenhando um papel fundamental nesse processo.

A pesquisadora Erika Berenguer, da Universidade de Lancaster, primeira autora do artigo, explica que a degradação florestal frequentemente começa com a extração de madeiras de alto valor comercial, como o mogno e o ipê. A retirada dessas árvores causa danos a dezenas de árvores vizinhas. "Uma vez que a floresta tenha sido explorada, formam-se muitas aberturas, o que significa que a floresta se torna muito mais seca devido à exposição ao sol e ao vento, o que por sua vez aumenta o risco de fogos acidentais se espalharem por dentro dessas florestas", afirma.

Ela ressalta ainda que desmatamento significa a remoção completa da floresta, enquanto que a degradação significa que a floresta continua em pé, mas tem sua estrutura e suas funções profundamente afetadas. "Essa diferença entre o estado da floresta é difícil de ser observada por análises tradicionais de imagens de satélite e passa despercebida pelo olhar de um leigo em campo", completa a pesquisadora.

O artigo mostra, portanto, que a contenção das mudanças climáticas não está somente no desmatamento. "A degradação da floresta é um elemento importante a se considerar no papel que o Brasil desempenha frente às emissões de carbono", explica Joice Ferreira. Há a necessidade de políticas públicas voltadas para a redução do uso do fogo na agricultura e para o controle da extração ilegal de madeira. As pesquisas na Amazônia já apontam soluções para essa questão: tecnologias de substituição do uso do fogo pela trituração da vegetação no preparo de área para o plantio, e o manejo florestal de impacto reduzido com o auxilio de softwares, são exemplos do que se vem apresentando como alternativa ao desenvolvimento da região. Mas, é necessário boa vontade política para a incorporação ampla destas práticas na realidade quotidiana da Amazônia.

Para o pesquisador Jos Barlow, da Universidade de Lancaster e do Museu Goeldi, o estudo abre novas perspectivas para entender o uso da terra na Amazônia, os processos de degradação e os impactos da ação do homem sobre a floresta. "O próximo passo é entender melhor como essas florestas degradadas respondem a outras formas de distúrbios causados pelo homem, especialmente aqueles oriundos das mudanças climáticas, como períodos de seca mais severos e estações de chuva com maiores níveis de precipitação", finaliza Barlow.


Rede
A Rede Amazônia Sustentável (RAS) é um consórcio de trinta instituições brasileiras e estrangeiras, da qual participam mais de 100 pesquisadores que desenvolvem estudos para avaliar a sustentabilidade dos usos da terra no leste da Amazônia. Junto com comunidades locais e organizações não-governamentais, a rede gera conhecimento para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. A rede tem atualmente diversos estudos em andamento na região, incluindo as respostas da biodiversidade e a condição socioeconômica das comunidades da região.

Criada em 2009, a rede é coordenada pela Embrapa Amazônia Oriental, Museu Paraense Emílio Goeldi, Universidade de Lancaster (Reino Unido) e Instituto Ambiental de Estocolmo (Suécia). A RAS é também parte do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia. "As pesquisas vêm produzindo conhecimento para melhorar nosso entendimento do balanço entre conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico no maior remanescente de floresta tropical do mundo", afirma o pesquisador britânico, Toby Gardner, um dos coordenadores da RAS.

A rede desenvolve seus trabalhos em duas regiões localizadas no estado do Pará, em Paragominas (nordeste), Santarém e Belterra (oeste). Elas diferem entre si em vários aspectos, como características biofísicas, história de ocupação e uso da terra, e representam as dinâmicas de desenvolvimento do leste da Amazônia. Nos locais há 225 pontos de coletas de dados de diferentes tipos, que geram estudos diversificados.

A abordagem das pesquisas realizadas pela RAS é multidisciplinar envolvendo componentes ecológicos e sociais. A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, diz que o objetivo das pesquisas desenvolvidas pela RAS é quantificar e melhorar o entendimento sobre as consequências ecológicas da perda, degradação e exploração da floresta, bem como das mudanças pela agricultura, incluindo a pecuária e a silvicultura. E também examinar os fatores que determinam os padrões de uso da terra.

Fonte: Embrapa/Foto: Rachel Carmenta
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