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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Como as mudanças climáticas afetam as populações da Amazônia



Quem mora próximos aos rios da Amazônia já está acostumado. De tempos em tempos, o rio sobe. E depois, desce. Nos últimos anos, porém, as cheias têm sido mais cheias e as baixas dos rios, mais baixas – ou ainda pior, consideradas secas. Rios secos representam a não possibilidade de transporte fluvial – essencial na região norte – falta d’água e problemas para a agricultura. Regiões alagadas também não colaboram com a vida, a locomoção e a alimentação.

Esse “vai e vem” dos rios para além do tradicional já é considerado um efeito colateral das mudanças climáticas no planeta. “Os eventos extremos associados às mudanças climáticas apenas agravam as vulnerabilidades da população na Amazônia”, diz Patricia Pinho. Ela é professora da Universidade de São Paulo e associada da rede Incline, de pesquisas sobre mudanças climáticas. Patrícia é a responsável pelo estudo “Dinâmicas Sócio-ecológicas associados a eventos extremos na Amazônia Brasileira” que retrata de que forma a população responde aos extremos hidrológicos associados às mudanças ambientais, como secas e enchentes severas na Amazônia.

O estudo focou no município de Silves, no Amazonas e situado a 400 quilômetros de Manaus, e na Floresta Nacional do Tapajós, no Pará. Com entrevistas e pesquisas, foi analisado como a população lidou com as secas extremas registradas em 1997, 2005 e 2010 e com as enchentes severas de 2006, 2009 e 2015. Patricia respondeu algumas perguntas sobre seu estudo por email. Confira a íntegra da entrevista no link abaixo.


ÉPOCA: Qual a importância de um estudo que mede os impactos dos extremos climáticos para as comunidades ribeirinhas?

Patricia Pinho: Meu trabalho é um dos primeiros a entender as dinâmicas de reação das populações ribeirinhas com relação aos extremos relacionados às mudanças climáticas. Pelo que ouvi durante o estudo, a seca de 1997 foi uma das primeiras a realmente impactar os habitantes da Amazônia. Comunidades que já eram isoladas ficaram ainda mais porque dependiam dos rios para trazer e levar alimentos, remédios, para transportar as pessoas para outros municípios, para levar as crianças para a escola etc. Com o rio seco, não era mais possível fazer nenhum transporte. Houve dificuldade para cultivar a mandioca, faltou de água potável e houve alta mortalidade de espécies pesqueiras. Para se ter uma ideia, o peixe representa 80% da proteína consumida na região.

ÉPOCA: Por que essas populações da Amazônia são tão vulneráveis aos eventos como seca e cheias?

Patricia: Falar de estações do ano na Amazônia é falar sobre a subida e descida das águas. O regime hidrológico é quem dita os padrões ecológicos, os modos de vida e de produção. A população está em constante sintonia com o regime hidrológico e são muito sensíveis as variações que ocorrem. Quando falamos de população vulnerável a extremos climáticos, no geral, é o Nordeste brasileiro que nos vem à mente. O fenômeno ainda não é tão relacionado à Amazônia, apesar de ocorrer. E essas populações amazônicas já são caracterizadas como vulneráveis se pensarmos nos índices como o IDH: 42% dos habitantes de lá são considerados pobres. E embora sejam adaptados às variações do regime hidrológico, as secas e as enchentes, estão aumentando muito mais nos últimos anos. Em 2009, na região que estudei, houve uma enchente grave, com grande impacto na segurança alimentar, na saúde e na infraestrutura. No ano seguinte, quando a população começou a se recuperar, foi a vez de uma grande seca. Esses eventos consecutivos mostram uma incapacidade de resposta a tempo e geram um enorme impacto socioeconômico.

ÉPOCA: Que tipo de políticas públicas poderiam melhorar a vida das populações impactadas?

Patricia: Temos a Defesa Civil atuando na Amazônia com a missão de atender as populações e de minimizar o sofrimento, as perdas de vidas e auxiliar na fase de reconstrução. No entanto, as distâncias ali são muito grandes e muitas das regiões só são acessíveis pelos rios. Além disso, há poucos recursos para ações e faltam pessoas para o trabalho. Então, a própria defesa civil tem dificuldade durante esses eventos. Existe também um grande custo de transação no que tange a liberação de recursos da defesa civil atuar – o município detecta o impacto na população, manda uma petição ao governo estadual, que envia ao federal e aguarda liberação. É um trâmite muito moroso. É preciso um maior investimento e agilidade nesse processo.

ÉPOCA: Quais são os piores impactos para as populações que passam por extremos climáticos?

Patricia: Quando os rios estão secos ou cheios demais, temos impactos severos na segurança alimentar e no sistema de saúde. Com o transporte pelos rios interrompido, não chegam alimentos, nem médicos e agentes de saúde. A população também fica sem conseguir sair dali. Durante secas extremas, a água se torna barrenta e escassa enquanto durantes enchentes extremas aumentam os casos malária e diarreia. As famílias perdem seus cultivos, seus rebanhos e animais que seriam uma alternativa alimentar, como porcos e galinhas. A educação é um dos setores impactados. Os professores não conseguem chegar às escolas pelo sistema fluvial interrompido e os alunos não podem ir à escola. No município de Silves, foi preciso mudar o calendário escolar para evitar aulas durante os períodos de seca.

ÉPOCA: No caso dessas pessoas que já estão sendo impactadas, seria melhor que elas pensassem em sair das áreas da Amazônia para viver onde há menos vulnerabilidade? Isso poderia se tornar um processo de êxodo?

Patricia: A população já tem saído das áreas rurais para os centros urbanos em busca de atributos que não têm, como educação e saúde principalmente. Com os eventos extremos isso se intensificou. À medida que as pessoas ficam sabendo que o rio está subindo ou secando muito rapidamente, procuram abrigo na casa de parentes nas áreas urbanas. Esse êxodo, não é o ideal. Essas saem de suas casas para ficar à margem da sociedade, pois lhe faltam condições e recursos para morar nesses centros. Precisamos combater a vulnerabilidade onde as pessoas vivem

Por: Thaís Herrero
Fonte: Época
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