sexta-feira, 10 de julho de 2015

Cuias do Pará são patrimônio do País

Mais um símbolo da identidade cultural paraense é referência nacional. Por unanimidade, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural declarou o modo de fazer cuias, na região do Baixo Amazonas, como Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão ocorreu na manhã de quarta-feira, 8, durante a 79ª reunião do Conselho, na Sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Brasília. Os 23 conselheiros foram favoráveis ao dossiê sobre a prática artesanal de fazer cuias, desenvolvida entre comunidades indígenas da região há mais de dois séculos e, atualmente, um ofício praticado por mulheres de comunidades ribeirinhas da região.

O pedido de registro, apresentado pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), em novembro de 2010, ressalta as técnicas e o conhecimento utilizados na região para confeccionar este objeto, que agregou novos elementos e significados ao longo dos tempos. Os saberes relacionados à produção e à utilização de cuias fazem parte das complexas dinâmicas de colonização e ocupação do espaço amazônico, e estão diretamente relacionados ao aproveitamento de recursos naturais disponíveis no Baixo Amazonas.

Para as populações ribeirinhas locais, as cuias fazem parte do universo cotidiano da comunidade, auxiliando atividades como pegar água do rio, tomar banho, cozinhar, consumir líquidos e outros alimentos, tirar água da canoa, decorar as paredes das casas, vasos de plantas etc. O repertório de produtos confeccionados com frutos diversos foi ampliado, com a aplicação das técnicas de produção da cuia. São fruteiras, copos, jarras, vasos, travessas, braceletes, farinheiras, cache, pots, petisqueiras, entre outros.

As cuias pintadas, diferentes das produzidas com incisões, foram introduzidas no repertório estético das artesãs no século XX, padrão incorporado atualmente em grande parte da ornamentação considerada tradicional. O Conselho Consultivo analisou a expressão cultural de longa continuidade histórica, mas que se encontra em constante processo de reelaboração, sendo uma tradição que se reitera e se atualiza, tendo relevância nacional na medida em que diz respeito à memória, à identidade e à formação da sociedade brasileira.

“É uma alegria poder selar hoje o reconhecimento do modo de fazer as cuias do Baixo Amazonas, porque ele resulta do trabalho de uma década, pelo menos, de interação entre o Iphan e as artesãs da região. Desde o apoio à organização delas, como associação, até às formas variadas de ajudar a promover esse produto. É um conhecimento riquíssimo que está acumulado ali. Além de um significado cultural e de síntese de conhecimentos e de expressão artística e cultural, as cuias também têm um significado como renda e modo de vida, que une e que articula todas aquelas pessoas”, avalia a presidente do Iphan, Jurema Machado.

“O sentido do patrimônio imaterial não é apenas esse momento aqui do reconhecimento. O trabalho é muito maior no momento pós-reconhecimento. Nós queremos estar permanentemente associados a esse grupo nas ações que chamam de salvaguarda, ou seja, do que virá depois, no sentido de contribuir com maior promoção, com transmissão desse conhecimento, com valorização dessa prática e, em última instância, valorização das pessoas”, completou.

A importância desse reconhecimento também foi destacada pela trabalhadora rural Raimunda Santana de Azevedo, que representou a associação das artesãs ribeirinhas de Santarém (Assarian) durante a reunião do conselho. “É um valor imenso de uma luta de muitos anos. Acreditamos que esse reconhecimento vai valorizar o nosso trabalho, do ponto de vista de reconhecer nosso esforço, nossa arte, de divulgar e melhorar a comercialização desses nossos produtos e de trazer uma nova realidade para as dificuldades que enfrentamos no dia a dia”, comemorou a artesã.

A preparação das cuias e sua elaboração estética demandam cuidadoso trabalho por parte das artesãs, que dispõem de suas habilidosas mãos para compor as peças. Através da força e sutileza de seus gestos, as mulheres servem-se de seus corpos para produzir objetos cujas técnicas e saberes vêm sendo transmitidas de geração a geração. Inicialmente, os frutos retirados da árvore popularmente chamada de cuieira são partidos ao meio com facão ou serrote. As duas metades são acondicionadas para amolecer na água, em bacias ou em pequenos cercados à beira do rio, quando então é realizada uma primeira raspagem das superfícies internas e externas.


Após este processo, as cuias são expostas ao sol, e inicia-se o processo de tingimento com cumatê, pigmento natural extraído do axuazeiro ou cumatezeiro. A água tingida é passada em ambos os lados das cuias secas, e as peças permanecem sobre um jirau para secar. São alocadas então em um estrado denominado cama ou puçanga, que é preparado com uma camada de areia e cinzas, em local coberto. Nessa camada é borrifada urina humana (para extração da amônia) colhida durante a noite anterior a esta preparação, em cuias grandes denominadas coiós. Assim, é colocada uma cobertura de palha sobre a camada molhada com a urina, onde as cuias são emborcadas e abafadas com pano ou lona, permanecendo assim por cerca de seis horas. O procedimento é repetido com as cuias desemborcadas, quando se passa ao processo de ornamentação. 

Fonte: O Liberal
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