segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Crônica: Manhã de Círio - Por uma janela azul

Por: Emanuel Guimarães Santos*

Novembro sempre foi um mês especial para mim. Não apenas por ser o mês que faço aniversário ou o fato de estar se aproximando as festas de fim de ano, ou ainda a proximidade das férias escolares, isso mesmo que não, pois, aluno relapso com eu era, sempre ficava de recuperação, mas nascido em uma família católica, dessas que ir à missa aos domingos não é um mero costume, mas uma necessidade, aprendi desde cedo que novembro era tempo de se preparar para no último domingo do mês acompanhar o Círio de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de, Santarém, Pará, minha terra natal, evento máximo para o povo católico da região e porque não dizer para toda a cidade, pois, mesmo quem não seguia a Igreja Romana, de alguma forma era envolvido pelo clima que tomava conta da Pérola do Tapajós nessa época do ano.

Bastava começar o mês para a vinheta com os acordes iniciais do hino da festa na Guarany FM anunciar que era chegada o tempo de mais uma festa e percorrendo as linhas da minha memória da infância, minha mente para em uma janela, uma janela de madeira, pintada de azul com vidros cujos desenhos lembravam os favos de uma colmeia, de uma velha casa de madeira pintada em um amarelo já desgastado pelo tempo. Quando aberta, essa janela mostrava a avenida São Sebastião, uma rua como tantas outras, mas ao abrir no último domingo de novembro tinha algo de muito especial, pelo menos para um menino na casa de seus sete ou oito anos, a rua estava toda enfeitada, bandeirinhas, como dizíamos, amarradas em fios de telefone ou algum outro cabo, imagino, enfeitavam a rua e os romeiros se dirigiam em direção a praça de Barão de Santarém, mais conhecida como praça São Sebastião, em sentido contrário à procissão que passaria horas depois.

A passagem do círio, aquela multidão caminhando unida, era o ápice daquele domingo festivo, uma alegria ímpar, mesmo sem a grandiosidade e a fama do Círio de Nazaré, em Belém, o nosso Círio tinha seus atrativos e encantos, fosse pelos pagadores de promessas: pessoas carregando pedras, tijolos, miniaturas de casas, que percorriam o trajeto descalças. Eram aqueles parentes e amigos que somente nesse dia apareciam para tomar água ou usar o banheiro, enfim tudo tinha um toque de Midas que dourava aquele domingo e quando a imagem enfim passava, os mais devotos faziam o sinal da cruz e aumentavam o fervor das orações, com preces e agradecimentos.


Havia também a banda de música da Polícia Militar, a Filarmônica Municipal e posteriormente a Orquestra Jovem. E como esquecer das crianças vestidas de anjo? Para muitos uma judiação levar uma criança com uma roupa de cetim num calor daqueles, mas todo ano elas estavam lá e não podiam faltar. Teve um ano que uma professora disse que acompanhar a procissão para pedir a benção da Virgem de passar de ano também fazia parte, mas para a benção ser completa tinha de assistir à missa depois da caminhada e também não valia sair antes do Dom Lino cantar “Dai-nos a benção”.

Para recobrar as forças depois da exaustiva caminhada, um caldo de cana e um pastel da garapeira Ypiranga eram a pedida mais em conta; e ainda tinha de voltar para casa, um castigo, ops..., outra penitência. Com os ônibus lotados o jeito era voltar a pé ou esperar até que o próximo coletivo viesse com menos gente, o que só iria ocorrer umas duas horas depois. Nesse tempo eu já estaria em casa se fosse andando. Várias vezes depois de caminhar na procissão voltei a pé, indo da praça da Matriz pelo cais de arrimo, para pegar o vento, até o mercadão para de lá subir para casa pela Professor Carvalho. Teve uma vez que minha mãe inventou de comprar uma melancia nas barracas montadas na praia perto do antigo tablado e adivinha quem teve de carregar a bendita fruta, saborosíssima, mas igualmente pesada.

Voltando às bandeirinhas, elas tremulavam ao vento, um alívio nas manhãs quentes de novembro – embora me lembre de um ano que o Círio transcorreu sob uma chuva torrencial – faziam um barulho inconfundível, como se avisando a todos que era tempo da festa e contagiavam com aquele clima de confraternização. Aos olhos de uma criança tudo aquilo era uma festa, mas festa mesmo era a noite anterior, fechavam a rua para que os moradores pudessem enfeitar a rua para a “santa passar” e o território era nosso, jogar bola, brincar de pira, correr solto sem o perigo dos carros, ainda que por alguns instantes, pois mamãe não deixava ficar até mais tarde, mas valia a pena pois na manhã seguinte a rua estaria enfeitada.

Com o tempo as brincadeiras foram ficando de lado, dando lugar ao trabalho, pois já rapazinho, como diziam os mais velhos, era hora de ajudar, fosse cortando plástico colorido, amarrando as tiras de plástico no barbante, carregando ou subindo nos andaimes para amarrar as bandeiras. Dona Maria José era quem comandava os trabalhos e ai de quem não ajudasse, perdia a farofa de piracuí com ovo. Subir nos andaimes para amarrar as bandeirinhas marcava o fim de todo o processo que começava bem antes, com a coleta para comprar os materiais, basicamente plástico colorido e barbante. Depois de comprados era a hora de cortar e amarrar em barbantes, com cuidado, para não amarrar duas tiras da mesma cor na sequência. Na hora de amarrar as tiras com barbante, os postes, grades, árvores serviam como apoio. Geralmente escolhia-se um ponto e saia-se de lá até outro ponto e dava-se uma, duas, três… quantas voltas fossem preciso até acabar o barbante e as tiras de plástico. Daí era enrolar em alguma coisa, um pedaço de madeira que se pegava na oficina do tio Biro ou um pedaço de papelão de alguma caixa que estivesse a alcance eram ideais; e esperar até o grande dia, ou melhor a grande noite.

No sábado, véspera do Círio, lá pelas cinco ou seis horas da tarde começava a movimentação para subir as bandeiras. Não sei como, mas sempre aprecia um andaime e gente para ajudar e ia-se assim até terminarmos, por volta de meia-noite. O trecho enfeitado não era muito extenso, cinquenta, sessenta, setenta metros no máximo, mas era gratificante ver a nossa rua enfeitada. Sempre tinha aquela voz do contra que criticava: “Não sei para que tudo isso? Só para uma hora, logo passa”. Se me perguntassem a época e ainda agora se me perguntarem eu também não sei responder o porquê, mas era mais que legal, era uma espécie de devoção, um rito, o tipo de coisa que se faz sem que tenha uma razão ou um motivo específico, apenas se faz. Talvez se buscasse mais a fundo eu encontrasse a resposta no olhar daquele menino que se sentia imensamente feliz em ver, por uma janela azul, a sua rua enfeitada para mais um Círio da Conceição. Feliz Círio, conterrâneos!

*É servidor público federal, santareno, residente em Mato Grosso do Sul.

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