domingo, 9 de abril de 2017

Sírios usam 'normalidade' para resistir à guerra, sem pensar no amanhã

Yan Boechat*
O grupo de seis amigos canta emocionado os versos de "Helwia ya Baladi", uma das canções nacionalistas mais tradicionais do Oriente Médio. Microfone do karaokê em punho, Nedal al-Abdallah, 27, puxa o coro e segue a letra em uma TV de LCD de 42 polegadas na taverna São Paulo, na cidade antiga de Damasco. O bar acompanha.

"Meu país, meu primeiro amor, meu lindo país, a única coisa que quero é voltar para o meu país e ficar nele para sempre", canta Abdallah, entre goles de cerveja.

"Esta é uma música da nossa infância, que cantamos em festas e que tem um significado muito importante agora", diz, enquanto uma amiga canta "My Way", versão de Frank Sinatra, a mesma que Donald Trump usou para sua dança inaugural como presidente dos Estados Unidos




Colado à casa onde se acredita que Ananias curou a visão de Paulo de Tarso, o bar São Paulo está a dois quilômetros das posições rebeldes no subúrbio de Damasco.

Poucas horas antes, era possível ouvir ali o som de caças MIG-23 sobrevoando a cidade e despejando bombas sobre alvos rebeldes em Jobar, periferia da capital síria.

Não raro, morteiros disparados de lá pousam nas redondezas. "Viemos beber para celebrar nossa liberdade, nossa vida", diz Eiras Jawed, 35, amigo de Abdallah já um pouco bêbado às quase duas da manhã de uma sexta do início de abril. "Aqui se vive um dia de cada vez, deixamos de pensar no futuro."

Os dois, assim como os outro quatro amigos, são muçulmanos sunitas e escolheram o bairro cristão de Damasco para sair.

Naquela noite, os amigos se despediam de Abdallah.

Com cada vez menos homens em idade militar, a Síria passou a buscar soldados na classe média e estudada de Damasco, algo raro nos primeiros anos de guerra.

Parte dos amigos de Abdallah e Jawed fugiu do país para, ante o alistamento compulsório, escapar de lutar uma guerra que já matou quase 500 mil pessoas —90 mil delas, soldados do governo.

"Eu vou [lutar], não conseguiria ir embora, me sentiria covarde, mas entendo os que deixam o país", conta ele, para em seguida fazer um brinde com os amigos e engatar uma nova música.

Cultura viva

Perto dali, um grupo de homens e mulheres dança música eletrônica em uma pista apertada em um barzinho da cidade velha de Damasco.

O 80's Bar está cheio, assim como as ruelas apertadas desta que é a ocupação urbana mais antiga do mundo, com cerca de 8.000 anos.
Yan Boechat/Folhapress

Cidade antiga de Homs, destruída durante as batalhas entre as forças do governo sírio e os rebeldes
"É nossa maneira de lutar, de não aceitar que destruam nossa cultura, nossa maneira de viver", diz a estudante de farmácia Mary, 19, que não quer dizer seu sobrenome. "Viemos relaxar, viver o momento, ele é só um, né", diz ela, que passou quase toda sua adolescência na guerra.

A vibrante noite damascena, seus incontáveis bares e clubes, é apenas uma das facetas de uma Síria desconhecida no mundo. Nas áreas controladas pelo governo, o país permanece funcional.

Há ruas cheias de gente fazendo compras, pontos turísticos visitados por sírios de outras cidades e um trânsito que, em alguns momentos, faz lembrar São Paulo.

Na cidade velha de Damasco ou mesmo nas áreas próximas da linha de frente, a guerra só se faz presente pelos inúmeros pontos de controle do Exército e o constante som dos aviões militares.

Mesmo ali na praça Abbassid, a metros do front que separa as forças rebeldes jihadistas e os soldados do regime de Bashar Al-Assad, castigada por morteiros na ofensiva do fim de março, os sinais de trânsito funcionam.

Guardas com apitos e um pequeno bastão repreendem motoristas que furam filas.

"A vida, de alguma maneira, segue seu ritmo, acho que nos acostumamos com tudo. É isso, acabou o medo, aprendemos a viver com a possibilidade de um morteiro nos atingir, de a vida acabar de uma hora para outra", diz o escultor Mehiar Malla, que voltou a Damasco em 2013, após dois anos fora.

Malla comanda com o pai um centro cultural no antigo bairro judeu de Damasco. Oferecem cursos de artes, recebem exposições, shows e até um grupo de capoeira.

"A vida é difícil, claro, mas segue. Continuamos fazendo arte, é nossa maneira de lutar. E Damasco está viva, com artistas, músicos, poetas", diz ele numa manhã em que dormiu só duas horas.

Os garçons do restaurante Wanes, um dos pontos preferidos de militares russos, altos funcionários do governo e da remanescente elite industrial de Aleppo, atendem seus clientes com cerimônia.


CONFLITO NA SÍRIA
Controle territorial do país está fragmentado após seis anos de guerra


Boa parte fala inglês e francês, e todos fazem questão de segurar as cadeiras até que os comensais se ajeitem.

A fleuma remete a quando Aleppo era a capital econômica da Síria, mas não combina com os ternos puídos dos garçons. "As pessoas estão tentando levar suas vidas, o que vamos fazer?", pergunta Mohamed Azizi, 47, que voltou a seu apartamento em Aleppo na semana passada.

Escombros

Na terça (4), Azizi e seus dois filhos passaram o dia retirando os escombros do quarto. Onde havia uma janela agora há um buraco que oferece uma vista aterradora da cidade antiga de Aleppo.

Ele, os dois filhos, a mulher, uma filha e uma nora deixaram Latakia, na costa mediterrânea síria, para retomar a vida a menos de dois quilômetros do Wanes.

Vivem todos no único cômodo do apartamento que não sofreu danos. "Vamos seguir, não podemos parar", diz Ahmed, o filho mais velho, enquanto consola o pai, em prantos após relembrar como era sua sua vida como vidraceiro em Aleppo.

Em 20 dias, Ahmed, recém-casado, também vai se juntar ao Exército. "Muitos já perderam a vida para que nós pudéssemos voltar para a nossa casa. Se eu precisar dar a minha, não há problema. Alguém precisa morrer para que os outros sobrevivam."

Apesar de liberada, Aleppo não está livre da ameaça de novos combates. Naquela noite, horas após os ataques químicos que mataram mais de 80 pessoas em Idlib, eles voltaram a atacar uma das entradas da cidade. Foram repelidos pelo Exército sírio.

Na quarta, Aleppo acordou como se nada tivesse acontecido. No Wanes, os garçons usavam os mesmos ternos puídos dos dias anteriores.

*É jornalista - Enviado especial da Folha de São Paulo
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