sexta-feira, 23 de junho de 2017

500 barragens ameaçam sufocar o Amazonas

Estudo publicado na revista científica Nature afirma que o impacto sobre os rios amazônicos será “irreversível” se todas as represas planejadas forem construídas

A barragem de Belo Monte, no rio Xingu, será é a terceira do mundo em geração de energia elétrica quando entrar em operação.

Por: Miguel Ángel Criado

Ao longo do Amazonas existem 140 barragens hidrelétricas em funcionamento ou em construção e outras 428 estão planejadas. Mesmo que no final apenas uma parte delas saia efetivamente do papel, os cientistas acreditam que seu impacto sobre os rios amazônicos será “desastroso”. Um estudo global sobre as consequências de tantas barragens aponta que elas alterarão o curso do rio, retendo a maior parte dos sedimentos e nutrientes fluviais que não produzirão seus efeitos benéficos na planície amazônica, sufocando a vida que depende do rio e do oceano onde acaba.

Tudo no rio Amazonas é desmedido. Seu principal trecho tem cerca de 2.000 quilômetros até a foz no Atlântico, em um estuário com mais de 300 quilômetros de largura. Mas ainda há outros 5.000 quilômetros até o extremo oposto, a nascente nos Andes peruanos, onde correm seus principais afluentes. Alguns, como o Madeira, o Negro ou o Japurá estão entre os 10 maiores rios do planeta. A Bacia Amazônica cobre uma área de 6,1 milhões de km2, 12 vezes maior que a Espanha. E a água que flui pelos rios amazônicos equivale a 20% da água doce líquida da Terra.

Apesar de tanta enormidade, nenhum rio sobrevive a 568 barragens. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo do qual participaram de ecologistas a engenheiros, passando por economistas e geólogos de uma dezena de universidades norte-americanas, alemãs, britânicas e brasileiras. Apesar de cada barragem trazer consigo um estudo de impacto ambiental, nunca havia sido estudado o impacto regional de todas as barragens existentes e a construir na Bacia Amazônica. A pesquisa, publicada pela revista Nature, analisa o impacto que elas terão sobre a vida do rio, das inundações sazonais que dão vida à Amazônia, aos sedimentos que deixará de arrastar até a desembocadura.

Os rios não são apenas água. Também carregam grandes quantidades de sedimentos que arrancam de um lado e depositam no outro. Esses sedimentos são o substrato mineral da vida numa enorme região de mais de um milhão de km2, entre zonas úmidas e planícies de aluvião. Em seu último trecho, o Amazonas transporta anualmente entre 800 milhões e 1,2 bilhão de toneladas de lama, areia e argila e pelo menos a metade disso acaba no oceano. Em cada barragem que surgir entre o rio e o mar, uma porcentagem desses sedimentos ficará presa no concreto.

“Lembrem-se do antigo Egito, que dependia dos sedimentos do rio que fertilizavam as terras da planície de aluvião”, diz o pesquisador da Universidade do Texas, em Austin (EUA), e principal autor do estudo, Edgardo Latrubesse. “O Nilo é hoje um rio totalmente regulado de maneira artificial por megarrepresas. É um caso típico que exemplifica os enormes impactos provocados por infraestruturas construídas há várias décadas, que produziram grandes impactos sociais, ambientais e econômicos”, acrescenta o especialista em geomorfologia dos rios. Não é a primeira vez que a situação do Egito moderno é relacionada com a alteração do curso do seu grande rio.

No caso que Latrubesse conhece melhor, o amazônico, o impacto combinado das barragens poderia provocar que mais de 60% dos sedimentos que o rio arrasta fique preso. “No Yangtzé [onde foi levantada a barragem das Três Gargantas], a retenção atualmente já é de mais de 75% e em outros rios, como o alto Paraná, no Brasil, a retenção é superior a 100%. Valores maiores que 70-90% são típicos no mundo. Esperamos algo semelhante no Amazonas se tudo for construído”, afirma.

Essa interferência na dinâmica do rio terá “consequências desastrosas”, nas palavras de Latrubesse. Os sedimentos não transportam apenas nutrientes para a várzea, mas são parte integrante do rio: “Os barrancos sofrem erosão, assim como ilhas e partes da várzea, enquanto novas áreas surgem por sedimentação”, lembra o pesquisador. Essa dinâmica ajuda a manter uma grande variedade de ecossistemas e, para os biólogos, “esse processo de regeneração é um mecanismo muito importante, que contribui para a criação de biodiversidade”, conclui.

O problema não será menor na desembocadura. A coluna de água e sedimentos que acaba no Atlântico se estende por mais de 1,3 milhão de km2 do oceano, a metade da área do Mediterrâneo. Além de ser a base de uma extensa linha de coral na costa americana e dos manguezais das Guianas e do norte do Brasil, essa enorme contribuição amazônica intervém no clima regional condicionado a formação e o movimento das tempestades tropicais do Caribe. A falta de sedimentos na região costeira também favorecerá a erosão marinha e a intrusão de água salgada nos aquíferos.

Os autores do estudo criaram um índice de vulnerabilidade dos rios ao impacto das barragens. Em um máximo de 100, alguns rios da parte andina, como o Marañón, poderiam atingir um índice de 72. Em sua cabeceira foram construídas ou planejadas 104 barragens de mais de um megawatt (MW) de capacidade de geração. Mais abaixo, o rio mais vulnerável é Madeira, um dos 10 mais caudalosos do mundo, que sozinho contribui metade dos sedimentos que o Amazonas leva ao mar. Com um índice de vulnerabilidades superior a 80, no Madeira vivem cerca de 1.000 espécies de peixes, o triplo do que em todos os rios da Europa.

Mas o caso mais impressionante talvez seja o do Tapajós, o principal afluente da margem direita do Amazonas. Em seu trecho principal não há nenhuma barragem. No entanto, é e será um dos mais afetados pela construção de dezenas de barragens em seus afluentes, criando um sistema interligado de represas e pântanos artificiais ao longo 1.000 quilômetros, quase a distância entre Madri e Paris. Para Latrubesse, “seria impossível construir esse tipo de obra de enorme impacto ambiental em países desenvolvidos”.

A justificativa para tudo isso foi a necessidade de gerar a energia para que Brasil, Equador, Peru ou Bolívia pudessem basear seu desenvolvimento. No entanto, as represas hidrelétricas não parecem ser a solução. O pesquisador da Universidade de Oxford e coautor do estudo, Atif Ansar, lembra: “Nossas pesquisas anteriores mostraram que, devido ao sistemático problema dos custos adicionais e a ampliação dos prazos, o custo real das grandes barragens é muito alto para ser recuperado”. Mas esses trabalhos eram baratos, não incluíam o impacto ambiental. Agora, diz, “as grandes barragens não apenas são inviáveis economicamente como também ambientalmente prejudiciais”.

Fonte: El País
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