quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Guia na Amazônia é fluente nas várias línguas que aprendeu com a natureza



Gilberto do Nascimento Silva viajou oito dias entre o Piauí e o Pará para trabalhar no garimpo. Em Campo Maior, deixou os pais e 13 irmãos, “dois de criação”. Em Itaituba, foi para uma área de extração no distrito paraense de Jardim do Ouro sabendo que não nascera para garimpeiro. Para ele, mais valiosa que ouro era a imponência das castanheiras e das samaúmas. Vigilante e guia de campo, hoje ele conduz, com eficiência, pesquisadores estrangeiros pela Floresta Amazônica sem dizer uma palavra em inglês. Porém, quando canta igual ao caçula e esturra feito a onça-pintada, demonstra fluência nas inúmeras línguas que aprendeu com a natureza.

Para sobreviver no garimpo Água Branca, Gilberto quase pagou com a vida. Aos 19 anos, vendedor de secos e molhados na área de extração, contraiu malária e foi levado a Itaituba para tratamento. Na cidade cortada pela Transamazônica, trabalhou como recepcionista em um hotel, foi garçom e arranjou um emprego como guarda-noturno no escritório do Ibama. Daí, foi para o Parque Nacional da Amazônia. E lá se vão 20 anos…

No Parque, Gilberto não se dedica exclusivamente a guiar estudiosos e observadores de aves. Responsável pela vigilância da área durante parte do dia, também faz a manutenção das trilhas e dos equipamentos que mantêm o alojamento funcionando. Essenciais são os registros que o guia faz, quase diariamente, com a câmera fotográfica que comprou com dinheiro do próprio bolso.

Nas trilhas e na rodovia Transamazônica, Gilberto Nascimento calcula ter visto mais de 100 espécies descritas da fauna – “afora as que não têm registro”. Fotografou muitos mamíferos, incontáveis exemplares da flora brasileira e perdeu as contas de quantas aves clicou. As imagens ilustram grandes painéis expostos no Parque, mas têm um mérito maior: o de documentar parte da imensa diversidade da Floresta Amazônica. No “álbum”, há aves como a belíssima ararajuba e a curiosa maria-leque, cujo nome se justifica pelo penacho colorido que se abre no alto da cabeça. Que outros animais são difíceis de avistar? “Entre os macacos é o parauaçu”, elege.

A floresta ensinou quase tudo a Gilberto, que não teve a oportunidade de estudar além do 4º ano. Depois de três horas perdido na mata, aprendeu, sozinho, a se orientar. Mas a lição número um, afirma, é respeitar os recados da floresta. Pegada de onça, por exemplo, é bilhete explícito. Uma vez, só se salvou de uma – com filhote – porque correu mais que o grande felino com o qual topou numa trilha do Parque.

Sem dizer um “hi” de inglês, o guia encontrou nos livros com imagens de animais que os visitantes trazem na bagagem uma forma de se comunicar, sem embaraços, com pesquisadores e observadores estrangeiros. Já com os bichos, a conversa flui em vários “idiomas”. Basta cantar diante do ninho do caçula para que a menor ave do Brasil venha voando em velocidade de inseto. O esturro da onça, Gilberto sabe imitar; a cantoria do cricrió também. O mais difícil de reproduzir, segundo o guia, é o canto do uirapuru. Isso porque a ave não dá vez aos seus aprendizes, que têm apenas 15 ou 20 dias por ano para aprender a cantar com o músico-da-mata.
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