terça-feira, 22 de agosto de 2017

Pesquisa da Ufopa indica santarenos com altos níveis de mercúrio no sangue


Décadas após o auge da atividade garimpeira na região do Oeste do Pará, um estudo realizado na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) traz à tona, novamente, o grave problema da exposição da população ao mercúrio. Dessa vez, o foco gerador não é mais o garimpo, durante anos considerado o principal responsável pela contaminação do meio ambiente por mercúrio. Atualmente, atividades relacionadas ao uso do solo, como desmatamentos, queimadas e a construção de hidrelétricas, são as que mais contribuem para essa contaminação.

O mercúrio (Hg) é um metal pesado, considerado dos mais perigosos para o meio ambiente e para a saúde humana devido à sua alta toxicidade. Altos níveis de mercúrio no organismo humano podem causar diferentes tipos de danos à saúde. O sistema nervoso central (SNC) é um dos mais afetados, mas fígado, rins, os sistemas cardiovascular, gastrointestinal e imunológico também podem ser prejudicados. Um dos efeitos mais graves é sobre mulheres grávidas e seus bebês. “Ele pode afetar diretamente os fetos, porque atravessa a placenta. Mesmo em casos de mães que apresentem sintomas mínimos, as crianças podem nascer com problemas neurológicos ou motores”, ressalta a bióloga Heloísa de Moura Meneses, responsável pelo estudo.

Em sua tese de doutorado, defendida em 2016, Heloísa avaliou os níveis de concentração de mercúrio no sangue de pessoas que vivem na região de Santarém. Ela analisou a exposição dessas pessoas ao metal através da ingestão de peixes contaminados com a substância.

Diferentemente da exposição a que estavam sujeitos os garimpeiros, chamada de ocupacional, a exposição pelo consumo de peixes é considerada ambiental e, nesse caso, obedece ao ciclo da natureza. Os solos amazônicos são naturalmente ricos em mercúrio. Através de incêndios florestais, por exemplo, o mercúrio é liberado na atmosfera, tornando-se disponível para a contaminação. Com a ação do vento ou através da erosão do solo, favorecida pelos desmatamentos, esse mercúrio contamina águas e vegetações dos rios. Na água, sofre metilação, transformando-se em metilmercúrio, uma das formas mais nocivas da substância, capaz de se acumular nos organismos. É dessa forma que, através da cadeia alimentar, o metilmercúrio atinge os peixes e, consequentemente, os seres humanos.

Metodologia - Em seu estudo, Heloísa caracterizou o perfil epidemiológico de 144 pessoas de ambos os sexos, com idade entre 18 e 81 anos, residentes na zona urbana de Santarém e na comunidade de Tapará Grande, localizada na área de várzea do município. Escolhidas aleatoriamente, as pessoas responderam a um questionário informando seus hábitos alimentares. Além disso, foram coletadas amostras de sangue de cada indivíduo. “Trabalhamos com a matriz sangue, que é diferente do cabelo. O sangue dá uma noção da exposição mais recente, atual. O cabelo mostra uma exposição de longa duração”, explica a pesquisadora.

Após a coleta, a bióloga dividiu os participantes em dois grupos, de acordo com os hábitos de consumo de peixe. Os que declararam comer a proteína três ou mais vezes na semana formaram o grupo de alta frequência. Os que comiam peixe no máximo duas vezes por semana foram incorporados ao grupo de baixa frequência. “A maior parte das pessoas se encaixou no grupo de alta frequência, quase 78% dos entrevistados”, ressalta.

Resultados da Pesquisa – Dados do estudo mostram que pessoas que informaram consumir peixe frequentemente possuem níveis de mercúrio mais elevados que as de baixo consumo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera exposto o indivíduo que apresenta níveis de mercúrio no sangue acima de 10μg/L (microgramas de mercúrio por litro de sangue). “Cerca de 65% dos participantes apresentaram níveis de mercúrio acima de 10μg/L, ou seja, a grande maioria. O grupo de alto consumo apresentou uma média de 30μg/L, enquanto o outro grupo apresentou, em média, 6μg/L. É uma diferença bastante significativa”, reforça Heloísa, destacando que houve casos de indivíduos com até 180 μg/L de mercúrio no sangue.

Apesar de a OMS estabelecer o limite de 10μg/L, a pesquisadora ressalta que há órgãos que recomendam níveis bem mais baixos de mercúrio no sangue. “Na verdade, não há limite considerado totalmente seguro para a saúde humana diante da exposição ao mercúrio. Não há um nível exato que seja responsável pelo aparecimento de problemas de saúde. Ou seja, mesmo níveis baixos podem causar danos à saúde”, avalia.

A professora salienta que, no caso da exposição ao mercúrio, é importante avaliar diferentes variáveis que possam explicar as diferenças de suscetibilidade de alguns grupos à exposição. Por isso, o estudo levou em consideração diferentes fatores ambientais, epidemiológicos e genéticos. Ficou evidente, por exemplo, que os homens apresentam níveis médios de mercúrio mais alto que as mulheres (30,4μg/L e 15,6μg/L, respectivamente) e que a presença do metal no organismo aumenta com a idade, devido ao acúmulo ao longo dos anos.

Além de idade e sexo, Heloísa considerou, geneticamente, as mutações num grupo de genes da família da Glutationa – genes que regulam o sistema de defesa antioxidante e os níveis de mercúrio no organismo. A Glutationa é um tripeptídeo que facilita o transporte do metal pesado no corpo humano e ajuda a combater o estresse oxidativo. Esse estresse resulta de um desequilíbrio entre a produção de radicais livres e a capacidade de defesa antioxidante das nossas células. O desequilíbrio causa um excesso de radicais livres, podendo provocar danos celulares e moleculares. “Ele também tem sido associado ao câncer e a males como o Alzheimer e Parkinson”, realça Heloísa.

Em seu trabalho, a pesquisadora conseguiu identificar que a ausência no DNA de um dos genes avaliados deixa os homens mais vulneráveis a altos níveis de mercúrio. “A deleção do GSTM1 aumenta a suscetibilidade dos indivíduos masculinos”, evidencia.

Conclusões – Os dados mostram que a população de Santarém está ambientalmente exposta ao mercúrio através do consumo frequente de peixe. “Na população ribeirinha, que tem uma dieta quase que exclusiva de peixe, já até esperávamos esses resultados. O que nos chamou a atenção foram indivíduos da área urbana também apresentarem níveis altos de mercúrio. Estes resultados são importantes porque, por muito tempo, a população de Santarém deixou de ser estudada por não ser considerada uma área sob risco da exposição mercurial”, avalia a docente.

O estudo mostra que a exposição mercurial continua sendo uma grave questão de saúde coletiva na região. “A identificação desses fatores permite o planejamento de ações de prevenção de doenças e de estratégias voltadas para a promoção da saúde da população. Queremos contribuir com informações para ações de vigilância em saúde ambiental”, analisa Heloísa, adiantando que o trabalho foi apenas um embrião do que ainda pretende estudar. “Essa tese me deixou com mais perguntas que respostas. A ideia é seguir adiante”.

Heloísa pretende, nas próximas etapas, trabalhar com grupos de mães e filhos, além de determinar quais são as espécies de peixes que têm maior relação com a exposição mercurial. “Também queremos fazer um levantamento mais aprofundado acerca do estado de saúde dessas pessoas, incluindo dados de análises clínicas e com a participação de um médico ou um enfermeiro na equipe. É estudo pra uma vida inteira”, estima.

Fonte: Comunicação/Ufopa/Renata Dantas
Compartilhar:

0 comentários:

DESTAQUE:

Defesa Civil interdita, de forma preventiva, trecho da orla de Santarém

A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec), interditou, de forma preventiva, um trecho da orla da cidade que fica em frente à R...

Publicidade:

Publicidade:

Quem somos

O Blog Quarto Poder está no ar desde: 23/02/2007

O Quarto Poder é um blog jornalístico voltado para divulgação de notícias de interesse público.

Artigos e crônicas assinados são de responsabilidade de seus autores e nem sempre refletem a opinião do Blog.

Jornalistas Responsável:

Renata Rosa

Fale com a gente:

Contatos: (93) 98128-1723 - 99131-2444

E-mails: m_santos1706@hotmail.com / m_santos170676@hotmail.com

FALE CONOSCO:


Quarto Poder

Marcadores

Blog Archive