domingo, 24 de junho de 2018

Mulheres são maioria no eleitorado e 46% ainda não escolheram um candidato


O eleitorado feminino terá um peso decisivo na definição do próximo presidente da República. No pleito de 7 de outubro, 52% do eleitorado é composto de mulheres — mais de 77 milhões de votos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O que mais chama atenção de especialistas é que metade delas, cerca de 38 milhões, são de chefes de família. Os observadores do jogo político alertam que os candidatos que pretendem chegar ao segundo turno na disputa presidencial precisam conquistar o interesse delas. A dificuldade é que as mulheres não formam um bloco de pautas uniforme. A depender do perfil da estrutura socioeconômica e da idade, as necessidades e prioridades mudam.

As pesquisas eleitorais mostram um cenário incerto: 46% das mulheres ainda não sabem em quem votar. O índice é menor para os homens: 25%. A professora de história Idalina Bonfim, 56 anos, não titubeia: garante que vai votar, mas ainda não definiu candidato, mas tem apreço por lideranças da esquerda. “O meu candidato, como mulher livre, independente, que pensa e tem consciência política, tem que pensar a questão da terra. Por que tem terras improdutivas que são repassadas de pai para filho? Por que o pobre tem que trabalhar 12 horas por dia? A educação está sucateada. Porquê? Tem pais que os filhos precisam trabalhar aos 14 anos para conseguir se manter. Isso não pode continuar”, explica a moradora.

Ela não acredita que faltam candidatos que representam as mulheres, mas que muitas ainda não despertaram a consciência política. “São poucas ainda, uma minoria que observa esse cenário com clareza. Mulher é assassinada, atacada. Todo dia morre uma mulher. Temos que andar no tapete do que os homens querem, conviver com o machismo. O candidato tem que abraçar causas das minorias, da mulher”, conclui. Atualmente, uma filha e neto moram com ela. A filha se separou e está alugando um apartamento.

Assim como Idalina, a faxineira Eliane Alves da Silva, 45 anos, não sabe em quem votar. Ela mora no setor Santa Luzia, área carente da Estrutural. Lá, perdeu dois dos 11 filhos e se preocupa com a escalada da violência. “Precisamos de alguém que traga a segurança de volta às ruas. Não podemos viver com medo eterno. Quem vai resolver isso? Ainda não sei, mas precisamos encontrar alguém”, reclama. “A falta de moradia e de renda prejudica a população e o desenvolvimento do país. Precisamos de condições para trabalhar e colocar comida na mesa”, avalia.

Ela sustenta a família com menos de um salário mínimo. Quatro filhos, entre 7 e 16 anos, e um neto recém-nascido vivem com ela no barraco. “O que não pode acontecer é continuar como está. Olha a situação deste país. Ninguém está vendo os

caminhos que a saúde, a educação e o mercado de trabalho estão tomando? Qual vai ser o futuro para esses jovens?”, critica. Eliane destaca que nenhum candidato a representa. “Paro para pensar nas pré-campanhas que estão aí, ninguém se aproxima do que eu penso, das necessidades que tenho e das mudanças de que a minha comunidade precisa”, pondera.

CorrupçãoOs recentes escândalos de corrupção na política brasileira se tornaram pauta para a escolha do voto da costureira Francisca Merianunce Araújo de Souza, 65 anos. A moradora do Bloco B da 403 Sul acredita que, para as áreas principais do governo funcionarem, a integridade dos gestores deve balizar as ações. “Não podemos mais ter situações de desvios e roubos como os que aconteceram. Dessa forma, não temos como pensar em futuro”, destaca.

Francisca tem dois filhos e cinco netos. Ainda cuida do marido de 90 anos. Ela reclama também da burocracia do país. “Coisas que deveriam ser solucionadas facilmente se arrastam por tempos. Assim, não tem como um projeto de nação dar certo. Sinceramente, acredito que as pessoas nunca estiveram tão desesperançosas para votar. Estamos com aquele sentimento de que não adianta mais procurar. Não tem alternativas”, avalia.

Com 12 candidatos com pré-campanha na rua, Francisca diz que ninguém tem o discurso de união do país. Para ela, nenhum dos políticos que pleiteiam a Presidência se mostrou capaz de juntar os brasileiros em um projeto de reestruturação do país. “Observo os discursos e sempre estão muito ligados ao universo do candidato. Com isso, as discussões ficam muito pontuais. Creio que as áreas principais (saúde, educação, segurança e emprego) deveriam ser foco de todos os candidatos. Estamos saindo de uma crise e não temos opções para nos reerguermos”, destaca.

O DF segue a tendência nacional. Na capital federal, em relação ao pleito passado, o eleitorado feminino cresceu 2,3%. Passou de 1.071.231 para 1.096.615: 25.384 a mais. Em 2014, pela primeira vez, o número de mulheres em condições de votar ultrapassou a casa do milhão. Os homens ainda não bateram essa marca. Além disso, cresceu menos. Entre 2014 e 2018, houve o aumento de 1,1% de eleitores do sexo masculino: 11 mil pessoas a mais. Eles eram 926.230 e chegaram a 937.261 aptos a escolher seus representantes.

Afinar o discurso

Tânia Fontenele, pesquisadora de gênero e coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher, explica que o percentual de mulheres indecisas mostra como elas não se sentem representadas pelos candidatos. “O que precisa ser analisado é se eles incluíram políticas para mulheres em seus discursos e quais as propostas. Temos que perceber que as discussões são para mulheres de várias classes. Há chefes de família que são vendedoras de pastel e tem mulher que é pós-graduada”, destaca.

As pautas das mulheres, segundo Tânia, estão mais ligadas a questões básicas. “Elas vão pleitear melhorias em serviços básicos, como hospitais, escolas e segurança. Há ainda a preocupação com o mercado de trabalho e a oferta de emprego”, conclui. Tânia acredita que a cultura de “mulher não vota em mulher” está acabando. “Esse comportamento tem sido enfraquecido cada vez mais”, pondera.

O Brasil é signatário de uma campanha da Organização das Nações Unidas (ONU) que pretende equilibrar o número de mulheres e homens na política. A ideia é que até 2030 ambos os sexos ocupem a mesma quantidade de cargos no parlamento. Mesmo as mulheres sendo maioria do eleitorado no país, elas não têm boa representação no Congresso. Dos 513 deputados, somente 10,5% são mulheres. No Senado, dos 81 parlamentares, 16% são do sexo feminino. Na Câmara Legislativa, apenas cinco são mulheres dos 24 deputados. Na Câmara dos Deputados, dos oito representantes do DF, somente uma é mulher. A capital federal não tem nenhuma senadora.

Nuances
O professor Rui Tavares, cientista político da Universidade de São Paulo (USP), é categórico: candidato que quer chegar ao segundo turno tem que conquistar o voto das mulheres. “Não há como fugir. Vai fazer falta, por mais que o eleitorado feminino não seja único. Eles (candidatos) deverão estar atentos aos limites que precisam ser respeitados. Discursos e condutas machistas podem mudar o panorama”, alerta. O segredo, segundo ele, é compreender que essa parcela do eleitorado, apesar de transparecer um bloco único, tem nuances que precisam ser observados.

A pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre a Mulher da Universidade de Brasília (UnB) Lia Zanotta Machado acredita que o maior gap é o de candidatos capazes de atender às necessidades das mulheres. “Essa parcela do eleitorado não é um segmento uniformizado. Em função disso, terão muitas perspectivas diferentes. Estarão presentes eleitoras progressistas e conservadores, de diferentes classes sociais. Temos que pensar, sobretudo, sobre igualdade de gênero. As mulheres cada vez mais estão defendendo seus direitos”, explica. (CB)
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