domingo, 3 de junho de 2018

No Pará, delegadas conquistam o comando de unidades especializadas


Delegada Fernanda Maués lida diariamente com os imprevistos inerentes à profissão, no comando da Divisão Estadual de Narcóticos

Quando o assunto envolve homens e mulheres ainda é comum ouvir que a igualdade entre gêneros esbarra no limite da força física. Fernanda Maués, 31 anos, mostra que esse conceito repassado de geração a geração é mais um mito social. À frente da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc) há dois anos, Fernanda Maués foi a primeira mulher a integrar o Grupamento Tático da Polícia Civil, o Grupo de Pronto-Emprego (GPE), conhecido por testes físicos de alto nível, que envolvem instruções de patrulhamento e defesa pessoal, rapel, entrada em ambiente confinado, tiro tático, manutenção de armamento e outras técnicas.

Logo no primeiro dia de curso, ela enfrentou um grande desafio: Deixar para trás um símbolo da vaidade feminina, o cabelo. Em posição de formação, com a mochila nas costas, Fernanda e 14 homens - dois delegados e 12 investigadores -, receberam instrução sobre como seriam as seis semanas seguintes. Foi quando ela teve que fazer a primeira escolha.

“A gente estava na parte de fora da Delegacia-Geral. Falavam de várias coisas, sobre uniforme ter que ser padronizado, do comportamento. Aí disseram que todos tinham que ter o mesmo padrão, e como eles (homens) iam cortar o cabelo, eu tinha que cortar também. Eu estava com o cabelo preso como rabo de cavalo no boné. Acho que porque nunca tinha tido uma mulher no curso inteiro, pensaram que eu era só mais uma delegada novinha que acabou de entrar no curso. E é tipo: ‘Isso não é lugar para ti, vai embora’. E falaram ‘vai bater o sino e pedir para sair?’, e eu disse ‘não, pode cortar”, lembra Fernanda, que ainda se emociona com o relato.

Esse foi um dos momentos mais marcantes do curso para a delegada, que chorou durante vários dias seguintes, sempre que acabavam as aulas e retornava para casa. Fernanda sentia que sempre seria testada para mostrar que podia ser a primeira mulher a fazer carreira no GPE. “E eu tinha que fazer o que eles mandavam, lidar com o estresse. E eu queria estar ali. Então, fazia tudo”, afirma.

Fernanda Maués recorda outras situações em que encarou os desafios a que era submetida como uma força que a empurrava ainda mais para dentro da polícia. Ela relata ainda que, “no percurso dos fuzileiros – passamos nas instruções com os Bombeiros, Marinha etc. –, todo mundo ficou com uma arma mais leve e me deram um fuzil 7.62 mm, que pesa uns 5 quilos. E todo o pessoal com armas menores, mais leves. No meio do percurso, queriam tirar de mim, mas aí eu não deixei. Quis ficar até o final”.

Firmeza – O dia a dia no comando da Denarc é movimentado. Ao receber a reportagem, a delegada lidava com o flagrante de um jovem de 19 anos, detido por porte de droga no Bairro Tapanã, em Belém. Ao acompanhar a oitiva do acusado, foi possível perceber a firmeza da delegada. Há quase quatro anos na Polícia Civil, ela já esteve à frente de grandes operações.

Mas a paixão pela corporação começou no final do curso de Direito, quando precisou escolher em qual área atuar. Os ensinamentos passados pelo pai foram decisivos. “A vida me levou pelas escolhas. Mas meu pai sempre me incentivou muito a não baixar a cabeça para algumas situações, a não me sentir diminuída. Minha educação foi assim. Também porque sempre fui muito curiosa, ativa. Para estar nessa profissão tem que ter esses requisitos. Querer ajudar os outros requer ser proativa”, garante.

Fernanda Maués se formou no final de 2009, e passou o ano seguinte estudando para concursos. Em 2011, decidiu tentar a prova específica para o cargo de delegada e foi aprovada para a Polícia Civil de Minas Gerais. “Exerci por um ano, mas durante esse tempo a família sempre falava em saudade. Meus amigos falando para eu voltar. Abriu (concurso) no Pará e decidi fazer”, informa.

Já delegada em território paraense em 2014, ela passou os dois anos da primeira lotação no município de Capanema (nordeste). Um ano depois fez o curso do GPE e, com o êxito na carreira, foi convidada para comandar a Denarc logo na inauguração, em outubro de 2016. A rotina na unidade é corrida, mas é justamente este o elemento-chave para Fernanda Maués.

“A gente começa o dia sem saber como vai terminar, porque lidar com o tráfico tem o imediatismo. A gente vem bem arrumada, mas tem que ter o tênis no carro, porque pode ter que viajar em cima da hora, já que a gente também tem atribuição de cobrir o interior do Estado. Mas quando escolhi sabia que ia ser assim. Para mim é muito bacana, gosto muito de não ter essa rotina fixa”, afirma.

Inspiração – Questionada sobre de onde vem inspiração para o trabalho, ela responde que dos efeitos diretos à sociedade. “O resultado do nosso trabalho é saber que tiramos uma pessoa que estava criando certa dificuldade para a sociedade. É saber que o nosso trabalho ajudou em algo”, responde.

Depois de demonstrar a satisfação pelo cargo que ocupa, Fernanda Maués fala sobre como ser inspiração não apenas para outras mulheres. Segundo ela, o primeiro passo é acreditar na própria capacidade. “Eu provei que podia estar ali. As pessoas pararam de me olhar diferente, e acredito que já é um incentivo para outras mulheres. Recebi muitas ligações na época, de pessoas que não me conheciam, dizendo que torciam por mim. E com o meu trabalho fui convidada para dar aula na Academia de Polícia, de instrução de armamento e tiro. Era a única mulher a lecionar sobre isso. As outras mulheres pensam que se eu posso estar ali, elas também podem. A gente tem que dar o primeiro passo. Óbvio que medo existe, mas a gente tem que acreditar que é capaz. Seja homem, mulher, se alguém fez, a gente vai fazer”, enfatiza.

Voz do coração - No mesmo concurso feito por Fernanda Maués outras policiais se destacam. Karina Campelo, 32 anos, é diretora interina da Delegacia de Prevenção e Repressão a Crimes Tecnológicos (DPRCT). O caminho profissional foi dividido entre Ministério Público e Polícia Civil.

“Minha relação com a polícia sempre foi de namoro. Ficava admirando, achava muito bonito, mas tinha aquele medo da família. Quando eu falava em ser policial não incentivavam muito, embora hoje eles tenham muito orgulho. Na faculdade, eu queria ser promotora de Justiça, mas achava maravilhoso ser policial. Até dizia: Quero casar com o MP, mas namoro com a polícia”, conta ela, com um toque de humor.

Karina Campelo já era analista do MP quando abriu o concurso para a Polícia Civil em 2014. O amor antigo falou mais alto, e ela decidiu escutar o coração quando foi para a Academia - fase para chegar ao cargo de delegada. Mesmo com medo, ela pediu afastamento do MP. “Eu ia sair sem saber se daria certo. Era trocar o certo pelo duvidoso”, lembra.

Exemplos - Na Academia, ela foi selecionada para o Núcleo de Apoio à Investigação em Castanhal, vinculado à Inteligência da Polícia, que dava apoio para as regiões do Salgado e Caeté, no nordeste paraense. Após sete meses, participou de uma operação com a delegada Beatriz Silveira Brasil, antiga diretora da DPRCT.

“Aí não voltei mais. Ela sempre dizia que ia me preparar para sair. É a minha principal inspiração, a pioneira de crimes cibernéticos. Muita coisa que eu sei hoje ela me ensinou, e continua me ensinando. Os exemplos são muito importantes”, garante. “De fato, antes de eu entrar na polícia, eu me espelhei muito nela. E quando tive a possibilidade de entrar, ela (Beatriz) foi uma pessoa que me ajudou muito. Até mesmo na decisão, já que eu era concursada de outro órgão e a família não me incentivava muito a ser policial”, relembra Karina, que se sentia motivada pelo trabalho realizado pela delegada Beatriz, desde o atendimento ao público e o acolhimento da criança abusada, ao idoso enganado no banco. “É essa a policial que eu quero ser”, afirmava.

Para ela, os exemplos são fundamentais. “Eu segui um exemplo quando era aluna, e hoje eu sou instrutora da Academia. Sei que sou exemplo para elas. Oriento e aconselho para elas terem sucesso na missão. Digo ‘você tem muita responsabilidade na sua missão, e você fazer um trabalho que possa servir de espelho é fundamental”!, ressalta.

Vocação - Atualmente, Karina Campelo não se vê fazendo outra coisa. O trabalho na Delegacia Especializada inclui atendimentos agendados e os de prioridade zero, que envolvem casos com pedófilos, crianças e mulheres, além das operações policiais e as ações de prevenção.

A delegada afirma que a polícia é, hoje, um dos pilares da sua vida. Além de atuar na DPRCT, ela cursa o Mestrado na área de Segurança Pública na Universidade Federal do Pará (UFPA), conciliando trabalho e estudo. A atuação na unidade, que funciona no mesmo prédio da Denarc, onde Fernanda Maués trabalha, também é corrida.

“O meu dia a dia começa às 8 h. Tem os dias em que ocorrem flagrantes. Aqui sempre digo que a rotina é não ter rotina. Às vezes dá para cumprir agenda, e às vezes não dá. Mas, além de tudo, a gente faz um trabalho muito bonito, que é preventivo, com orientações em escolas e palestras. Porque a polícia pode ir além de reprimir. Tem o papel de orientação, de levar informação”, reforça.

Identificação - Karina Campelo não recorda de ter sido subestimada por ser mulher, e acredita que o aumento da presença feminina na corporação contribui para isso. Até março de 2018, a Polícia Civil contabilizava cerca de 180 mulheres à frente de delegacias no Pará.

“Para algumas, acho que falta identificação mesmo, porque às vezes você tem que deixar a família para cumprir uma tarefa importante do trabalho, uma missão. Mas, nos últimos concursos, percebemos que tem mais mulheres, e as últimas delegadas têm ocupado posições de chefia muito rápido. Minhas colegas são muito dedicadas. Então, acabam percebendo aquele talento e colocam em um lugar de destaque”, observa.

Para a delegada, não há espaço para se arrepender da escolha que fez, especialmente porque ela vê pessoas beneficiadas pelo trabalho realizado. “Me sinto abençoada por ter escolhido essa profissão, na qual conseguimos ajudar muita gente. E quando você consegue resolver o problema, e as pessoas ficam agradecidas, você sente uma satisfação muito grande. Mesmo se me oferecessem outro emprego, mais dinheiro, até ganhando mais eu não sei se iria”, afirma ela, sobre a possibilidade de deixar a carreira policial. (AP)
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