sábado, 24 de novembro de 2018

Nova Catedral é reaberta ao público e divide opiniões

Antiga Catedral: A igreja possuía seis vitrais com imagens de Mateus, Marcos, Lucas e João, e dos dois apóstolos Pedro e Paulo. Próximo ao altar, uma placa comemorativa datada do ano de 1846, descrevendo um milagre concebido ao naturalista Alemão Carl Friedrich Philipp von Martius que escapou de um tufão no rio Amazonas durante suas expedições pelo Brasil 27 anos antes.

Por: Kamila Andrade*

Após mais de três meses de revitalização em um dos prédios mais antigos de Santarém, no Oeste Pará, a Catedral de Nossa Senhora da Conceição foi reaberta à visitação pública, durante uma celebração, na última quarta-feira (21). A reabertura da igreja atraiu muitas pessoas. Fiéis e curiosos lotaram a missa. Mas a maioria do público presente nem deu muita atenção à oração do padre. Os olhares das pessoas estavam voltados para a contemplação do interior da Matriz. É bem verdade que os traços modernos não agradaram a todos e as mudanças dividiram opiniões. No dia seguinte, depois que as primeiras imagens da revitalização da Catedral foram divulgadas, começaram a surgir muitos comentários nas redes sociais sobre as modificações. Algumas pessoas se posicionaram radicalmente contra a obra que, segundo eles, descaracterizou o complexo arquitetônico da igreja. Para outros, a Casa de Deus ficou mais bonita, mais moderna e dá uma sensação de conforto às pessoas.

Interior da Matriz antes da última revitalização iniciada em agosto deste ano para as comemorações do Círio 100

O professor acadêmico e publicitário, Diego Moraes, não hesitou em fazer sua postagem na sua página pessoal. Ele escreveu que a obra não foi feita pensando no lado histórico da igreja e relatou a tristeza com mais uma perda na história santarena. “Eu vi pessoas falando que já houve outras reformas que descaracterizaram a arquitetura original, mas de qualquer forma a anterior a essa nova é uma arquitetura histórica e já tinha décadas. Isso me entristece muito, porque é a história de Santarém que está indo embora”, disse o publicitário.

Ele destaca ainda que a modernidade não deve prevalecer entre a história de uma cidade e também que gostaria de ter visto os órgãos reguladores de arquitetura histórica acompanhando o andamento dessa obra, pois, no seu ponto de vista, deveria ter ocorrido apenas uma restauração, e não a mudança da forma que foi feita.

Já para o geógrafo e estudante de direito, Marcos Ribeiro, o povo gosta muito de reclamar sobre as coisas. “Gostei, levando em consideração as mudanças em relação a várias ilustrações que antes possuía e foram retiradas, ou seja, ficou com uma imagem mais limpa e o que tem que ser preservado é a parte arquitetônica, e mesmo assim, ela já foi bem modificada tempos atrás”, comentou o geógrafo.

Catedral moderna: Na última quarta-feira, a igreja foi reaberta ao público durante uma celebração.

Ele também destacou que a fé dele não mudará e que ele é frequentador assíduo da Catedral. Para Ribeiro, quem reclama não conhece as necessidades da igreja.

A Catedral ganhou climatização, nova pintura, novos oratórios, iluminação no teto e nas imagens sacras, que se destacam neste novo formato. O forro foi trocado, as paredes ganharam novo reboco - sobretudo onde havia infiltrações - e também parte das paredes foi revestida com cerâmica. As calhas foram substituídas e as pias que servem água benta foram trocadas de local, ficando perto da porta de entrada.

Muitas coisas foram mudadas e acrescentadas para que a igreja ficasse com um aspecto mais moderno.

O padre Walter Imbiriba, pároco da igreja, explicou que a revitalização foi necessária, pois após vistorias notou-se que o prédio oferecia perigo às pessoas. “Pedi uma vistoria na parte elétrica e nas demais estruturas do prédio e em todas as avaliações o resultado indicava perigo”, disse o pároco.

O padre destacou os pontos motivadores para essa revitalização: os perigos de incêndios e desabamento do forro e telhado, a desarmonia litúrgica e a grande poluição visual. De acordo com o padre, as alterações são feitas seguindo as orientações litúrgicas. “A liturgia é um do conjunto harmonioso de fatores que existem dentro do espaço litúrgico de um tempo que tem significados e simbologia. Toda essa orientação está em documentos sobre o referido assunto, ou seja, ao convidar o engenheiro ou arquiteto um dos requesitos é que ele seja cristão católico e se disponha a seguir as orientações fornecidas pela igreja”, explicou.

Vitrais se destacam neste novo formato da Catedral de Nossa Senhora da Conceição.

Quanto aos comentários de que a igreja foi descaracterizada, o religioso ressaltou que não se pode mudar algo que não tem mais características originais.

A igreja da Matriz tem muito valor histórico, arquitetônico e cultural. Por meio do Círio, ela se tornou um símbolo de representação de arte e cultura da cidade. A professora acadêmica e arquiteta, Estefany Couto, disse que por mais que a igreja não seja um bem tombado, nada impede de ser considerada um patrimônio histórico, pois este termo está relacionado ao fato do valor que representa à sociedade. “Preservar a igreja, tanto na sua estrutura física como culturalmente, significa não só preservar a história da cidade, mas todo o valor e representação cultural do povo santareno”, ressaltou a arquiteta.

Imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Ela destacou ainda que a igreja vem sofrendo reformas conforme a demanda da Diocese, no entanto, segundo ela, sem uma supervisão adequada dos órgãos de preservação e isto é visível.

Histórico da Catedral

A Catedral começou a ser construída em 1754, a mando do Governador do Grão-Pará, Francisco Xavier de Mendonça Furtado. A inauguração da igreja ocorreu em 8 de dezembro de 1819, na Praça Monsenhor José Gregório, conhecida como 'Praça da Matriz', no centro da cidade de Santarém.

A primeira revitalização ocorreu em 1836, após a igreja ter sido invadida por cabanos que causaram danos na arquitetura original do prédio.

Diversas reformas foram acontecendo durante os anos os seguintes. A última ocorreu em 2012 por necessidade de atender a recomendação do Ministério Público, fazendo as rampas de acesso para dar mobilidade aos portadores de deficiência. E por fim, neste ano de 2018, foi realizada uma nova revitalização no templo, como parte também da programação do Círio de Nossa Senhora da Conceição, que neste ano chega ao número 100.


*É jornalista
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