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Contos Amazônicos: A lenda das crianças-macaco


Por: David Marinho*

Os antigos moradores de uma região no Estado do Amazonas, próximo ao Arquipélago das Anavilhanas no rio Negro, contam que há muito tempo, um fato inusitado aconteceu, quando um casal de gringos missionários que viajava num pequeno avião sobre essa área, veio a cair sobre uma das quatrocentas ilhas desse arquipélago desabitado e selvagem.

Nesse acidente, o piloto marido da mulher, morreu, e ela ficou muito ferida e desmaiada. Quando voltou a si, estava dentro de uma “toca” feita de arbustos e palhas, com algumas frutas nativas próximas. Ficou sem entender aquilo, e se perguntando sobre o que estava acontecendo. Foi quando viu se aproximar dela um grande e forte “macaco-aranha”, trazendo alguns peixes em suas longas mãos. Só então se deu conta de que poderia estar vivenciando uma estória igual à de King-Kong dos filmes hollywoodianos. Ficou assustada aguardando o desfecho daquilo que pensava ser apenas o início de um grande pesadelo.

Tempos depois, sem nenhum socorro e resgate, pois o monomotor ficou totalmente escondido na densa floresta, voltou aos destroços do avião, mas sempre observada pelo primata que parecia devorá-la com os olhos. Fez um simples enterro do corpo de seu marido, e passou a morar dentro do que restou da pequena aeronave.

Como temia, tudo veio a acontecer, pois o grande “macaco-aranha” a transformou em sua fêmea, e ela não tendo alternativa, se submeteu a essa nova realidade, esperando sempre uma oportunidade de fugir ou ser resgatada por alguém, daquele local que em outras circunstâncias poderia ser um paraíso, mas que para ela se transformara num aterrorizante “inferno verde”. O tempo passava e ninguém aparecia para salvá-la das mãos daquele animal, e após anos nesse mundo selvagem; o que dessa bizarra relação, começaram a nascer os filhos do casal, entre “meninas e meninos”, que tinham em seus corpos um misto de metade-humana, metade-macaco, e passaram a conviver como uma família primitiva, numa choupana de palha feita por ela, próximo ao avião sinistrado. Alimentavam-se de frutas, raízes e peixes crus, pois desenvolveram uma técnica de pescá-los e colhê-los.


Porém, a “mulher-gringa” nunca perdeu a esperança de um dia, ser resgatada daquele lugar isolado do mundo civilizado, e para isso mantinha um pedaço de pano branco que por meio de sinais e carinhos pediu ao “macaco-aranha” que o colocasse na copa da árvore mais alta daquela ilha, sem ele saber qual seria o objetivo. Dessa convivência e relação reprodutiva, o casal já possuía quatro “filhotes”, estando o mais velho com três anos e os mais novos; um casalzinho de gêmeos com apenas um aninho, que eram risonhos e sapecas quando se abraçavam, “xodós” do pai, que demonstrava carinho com suas crias e se esforçava para arranjar alimentos para todos. Mas a mãe nunca aceitou aquilo com naturalidade e não via à hora de se livrar daquela sofrida vida selvagem.

Foi quando certo dia, ela descascava algumas frutas para alimentar sua estranha prole, então percebeu um pequeno hidroavião sobrevoando a árvore onde estava preso o pedaço de pano igual a uma pequena bandeira, enquanto o seu, agora parceiro “macaco-aranha”, se encontrava para o interior da mata caçando pequenos animais e tirando mel de abelhas. Ela vendo o hidroavião, correu para um descampado da ilha e fez sinais para os ocupantes do hidroavião que deram uma volta num vôo rasante, e pousaram num lago mais próximo, e alguém pegou um pequeno bote inflável e dirigiu-se para resgatá-la. A mulher louca para se ver livre daquele cativeiro natural, abandonou seus filhotes “crianças-macaco” e sem temer as piranhas se atirou no rio indo de encontro ao pequeno bote, sob os gritos e choro de seus “filhotes”, que agora ameaçavam, também se atirarem nas águas cheio de vorazes piranhas, indo atrás da mãe.

Com a zoada do avião e os gritos de seus “primatinhas”, o “macaco-aranha” voltou rápido da mata e corria agora saltando próximo ao rio uivando de desespero, atirando pedaços de paus, por estar vendo a fuga de sua “amada-amante” e o sofrimento de suas “crianças”. Logo, a mulher foi resgatada no bote, e com uma dor apertada no peito se afastava agora daquela dolorosa vida selvagem, mas ao mesmo tempo sofria a separação daqueles pequeninos “seres”, que ela não poderia negar de serem seus “filhos”, pois nasceram dela...

O grande “macaco-aranha” se dando por vencido em perder sua parceira, voltou todo seu ódio contra seus “filhotes”, lembranças de um “grande amor selvagem” agora desfeito, e como forma de vingança para atingir a fugitiva, com parte do corpo ainda dentro do rio, começou a trucidar seus próprios “filhos”, ao segurá-los pelas pernas e rasgá-los ao meio e os atirava às piranhas, fato que chocou os tripulantes do hidroavião e deixou um sentimento de culpa na mulher, que “pirou” completamente. Pois ao chegar a Manaus, a cidade mais próxima, foi internada num manicômio, de onde nunca mais saiu, e sempre nas madrugadas frias, gritava ecoando pelos longos corredores: - “Eu quero meus filhooos!!! - Eu quero meus filhooos!!!”

O “macaco-aranha” transtornado pelo ocorrido, voltou para sua “toca” e tomou uma grande dose de sumo do “Cipó-timbó” misturado com casca de “Assacu”, dando fim também à sua vida, encerrando aquela odisséia de um amor selvagem não correspondido, em pleno coração da Amazônia...

*É Projetista e Gestor Ambiental


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