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Produtores apostam em Sistemas Agroflorestais para fortalecer a agricultura familiar em Juruti, no Pará


A implantação Sistemas Agroflorestais (SAFs) têm sido a aposta de produtores rurais de Juruti, no Pará, para garantir uma agricultura mais sustentável. Os SAFs estimulam a plantação diversificada na mesma área, evita a queima da floresta e permite a conservação do solo, com o cultivo de espécies arbóreas, frutíferas, madeireiras e ainda a produção de animais.

A prática agroflorestal, até então, era pouco conhecida na região. Foi então que, em 2018, cerca de 60 produtores passaram por uma capacitação promovida pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Juruti (STTR). A mesma formação foi oferecida a mais 50 jovens produtores, da Associação das Comunidades da Região do Planalto Mamuru (ACRPM), destacando as vantagens da produção por meio do sistema. Ambas formações com apoio do Instituto Juruti Sustentável (IJUS).

O trabalho de implantação dos SAFs começou em novembro de 2018 e já foi concluído nas regiões do Mamuru e Curumucuri, por meio do projeto “Restauração Compatível com Igualdade de Gênero e a Mudança do Clima”, desenvolvido pelo WRI Brasil, financiado pela Alcoa Foundation e Instituto Juruti Sustentável (IJUS) e implementado pela PRETATERRA, que atua na produção agroflorestal. Os produtores estão recebendo todo o apoio técnico, e material na execução do projeto.

Segundo o Instituto de pesquisa WRI Brasil, no âmbito do projeto em Juruti, foram implantadas 22 unidades demonstrativas com sistemas agroflorestais, somando 10 hectares. O instituto atua no desenvolvimento de pesquisas e implementação de soluções sustentáveis em mudanças climáticas, florestas e cidades.

“A organização é responsável por sistematizar todos os aprendizados e dados do processo de desenvolvimento e implantação das unidades demonstrativas e, ao mesmo tempo, se propõe a contribuir nos processos de articulação com atores regionais e conexão com a agenda da restauração na região amazônica”, declarou Mariana Oliveira, analista do WRI Brasil.

A PRETATERRA analisou diversas áreas e selecionou zonas e famílias que estavam dispostas a conduzirem sistemas agroflorestais de sucesso em suas propriedades, dispostos, sobretudo, a mudar o sistema da coivara (corte e queima) para um sistema agroecológico de manejo do solo, associado a um sistema produtivo agroflorestal biodiverso.

Ao todo, 22 famílias foram selecionadas. Os consultores focaram nas propriedades lideradas por mulheres e jovens, capacitados em práticas agroflorestais. A primeira fase de monitoramento das unidades começou em fevereiro deste ano. Todas as propriedades apresentaram uma média de excelência acima de 90% de qualidade do plantio.

Valter Ziantoni é engenheiro florestal, consultor da PRETATERRA e um dos responsáveis por desenvolver os sistemas agroflorestais com os produtores nas propriedades rurais. Segundo ele, o manejo das espécies no tempo, no espaço e a interação ecológica entre as plantas compõe a reprodução das “dinâmicas da floresta”.

“A diversidade de produtos agrícolas distribuída ao longo do tempo reduz a dependência da renda de uma só cultura, além de incrementar o suprimento alimentar da família produtora. Assim, a prática da agrofloresta assegura maior oferta de produtos, garante a segurança alimentar e otimiza o espaço rural”, declarou.

O Sistema Agroflorestal estimulou a produtora Marliane Soares, de 24 anos, a investir no plantio de espécies frutíferas e florestais na mesma área, em sua propriedade, na comunidade Nova Esperança. Em 1 hectare, foram plantadas mudas de acerola, graviola, cupuaçu e laranja, além de cedro vermelho, pau rosa, cumaru e andiroba.

“Eu sempre busquei aprimorar as nossas plantações. A gente já plantava, só que não com tanta organização e com tanta diversidade de cultura. Usar a queima para limpar a área: Essa é uma experiência nova. No caso, nós não queimamos a área. Nós criamos a agrofloresta sem a queimada, o que ajuda o meio ambiente”, destaca.

A fase de implantação dos SAFs inclui a produção de mudas e o plantio das árvores nas unidades. O trabalho é feito pelos produtores a partir do auxílio técnico da PRETATERRA. Depois, os sistemas passam a ser monitorados com o apoio dos próprios produtores. A expectativa é que em seis meses já ocorra a primeira colheita das culturas agrícolas, como milho e feijão, a seguir a colheita da mandioca em 1 ano, e as primeiras colheitas de frutos em 3 anos.

Para a engenheira florestal Susiele Tavares, que atua na Alcoa de Juruti, a implantação dos SAFs gera benefícios para toda a região amazônica, por dispor de técnicas de cultivo diferenciadas para o uso da terra. A vantagem é que o produtor pode inserir outro tipo de cultivo, que além de elevar a renda, ainda ajuda o solo a se reestruturar.

“É uma forma de continuar fazendo o cultivo que eles fazem, a utilização da terra, de tal forma que você consiga otimizar, tanto o espaço que você tem, a área que você vai cultivar, quanto implantando técnicas de cultivo que você não vai precisar sair daquela área para abrir uma nova e cultivar nos anos seguintes o seu plantio”, afirma.

O desafio de atuar na Amazônia vem sendo superado com parcerias e muita vontade, é o que destaca Gustavo Hamoy, diretor-presidente do IJUS, “O projeto iniciado em 2018 foi um divisor de águas para os produtores de nossa região. Temos muita gratidão aos parceiros do atual projeto. Isso fortalece, mostra que estamos no caminho certo, de financiar, de ser o indutor do desenvolvimento local, através das associações e dos sindicatos. Também fortalece o empoderamento do terceiro setor no município, da sua capacidade de execução de projetos e projetos bem feitos”, destaca.

Implantação dos SAFs


De acordo com a Cartilha de orientação técnica de Implantação e Manejo, desenvolvido pela PRETATERRA e entregue aos agricultores participantes, para o preparo da área primeiro é feito o manejo da capoeira, seguido da medição e marcação das linhas de plantio. É preciso medir com trena e marcar com estacas as linhas de árvores a cada 10 metros e depois acumular a biomassa mais grossa sobre as linhas, formando leiras.

Em seguida é feito o plantio das espécies agrícolas principais, como a mandioca. Após o plantio, o solo dever ser mantido coberto. Os agricultores são orientados a juntar o máximo de sementes e mudas das plantas a serem cultivadas, como o açaí, cacau, cupuaçu, mamão, uxi, taperebá, ingá, abacaxi.

Para a implantação do sistema, são abertas as covas de plantio de acordo com a medição prévia e são distribuídos os insumos como calcário e composto nas covas. Por fim, é feito o plantio de mudas de árvores (cedro vermelho, pau rosa, andiroba e cumaru), frutíferas (cacau, graviola, cupuaçu, acerola, laranja, açaí), sementes (milho, feijão-guandú, taperebá, urucum, milheto e paricá) além de outras espécies e cultivos escolhidos pelos agricultores.

A manutenção e o cuidado anual do sistema também são importantes. O chamado manejo agroflorestal garante a saúde, o bom crescimento das plantas e uma produtividade satisfatória. A intensidade de manejo varia ao longo dos anos, conforme a necessidade de cada espécie e seu crescimento.

As principais atividades envolvidas no manejo agroflorestal são: as podas, a roçada do mato/capoeira e trituração da biomassa sobre o solo, os desbastes, que é a retirada seletiva de alguns indivíduos, a adubação, especialmente para as espécies frutíferas e por último, as colheitas.

Nestes sistemas, pode ser adotada ampla variedade de espécies arbóreas, de maneira modular e replicável, de acordo com um design planejado. As árvores provêm produtos, como madeira serrada, lenha, carvão e celulose, além de outros não madeireiros, como frutos, castanhas, forragem, látex, fibras, óleos, resinas e produtos medicinais.

SAFs no Congresso Mundial na França

O trabalho científico produzido a partir de um projeto piloto implementado em Juruti pela PRETATERRA será destaque no Congresso Mundial sobre Agrofloresta, que vai ocorrer de 20 a 23 de maio em Montpellier, uma das cidades mais antigas da França, cercada por locais naturais e patrimônio mundial da Unesco.

O objetivo geral é contribuir para o progresso da ciência e prática agroflorestal. Os fatos e números agroflorestais dos países em desenvolvimento e desenvolvidos serão apresentados e discutidos por uma ampla gama de interessados: pesquisadores, agricultores, funcionários do governo, estudantes, setor privado e a sociedade civil.

Fonte: Ascom I IJUS


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